Uso em pesquisa/triagem (RUO) — apoio à decisão, não diagnóstico

HematoCase: detecção e classificação assistidas por IA em mielograma e sangue periférico — nota técnica de validação

PickCells · Plataforma PickCells‑H · Fortaleza/Recife, Brasil · Setembro de 2026 · Dados de validação gerados em 17/09/2026.

Resumo. O HematoCase é uma bancada digital que oferece apoio à decisão em hematologia: modelos de IA localizam e classificam células em campos de mielograma e sangue periférico, e o profissional habilitado revisa, valida e conclui. Esta nota descreve a metodologia e os resultados de validação frente à curadoria humana. Os detectores de mielograma foram avaliados em 50 caixas anotadas (6 campos, IoU ≥ 0,5) e os classificadores em 180 imagens de 9 classes (20 por classe). O melhor classificador (YOLOv8‑cls) obteve acurácia de 98,3% (IC Wilson 95%: 95,2–99,4); o melhor detector (variante letterbox) alcançou revocação de 0,86 (73,8–93,0), precisão 1,00 e acerto de classe de 88,4%. O tamanho reduzido do conjunto anotado (n = 50) produz intervalos amplos; a diferença entre letterbox e squash não foi estatisticamente significativa (McNemar, p ≈ 1), embora teoricamente motivada. Todos os resultados são apoio à decisão (RUO), nunca laudo.

1. Introdução

A avaliação morfológica do esfregaço de sangue periférico e do aspirado de medula óssea (mielograma) é etapa central do diagnóstico hematológico, apoiada na contagem diferencial e na identificação de linhagens celulares2. Limiares morfológicos têm peso diagnóstico direto — por exemplo, o percentual de blastos que define leucemia aguda na classificação da OMS1 — e a própria contagem diferencial carrega imprecisão amostral bem descrita, que justifica reportar intervalos de confiança em vez de pontos isolados3.

Métodos de aprendizado profundo tornaram-se referência em visão computacional 8 e, em hematologia, redes convolucionais já demonstraram reconhecimento de blastos e tipagem de leucócitos em nível comparável ao humano14,15. O HematoCase aplica detecção de objetos9 para localizar células e classificação para tipá-las, mantendo o profissional como autoridade final. Esta nota reporta a validação desses modelos com quantificação explícita de incerteza.

2. Materiais e métodos

2.1 Modelos

Foram avaliados três detectores de mielograma — dois de 2024 (arquitetura YOLOv8n), um deles com pré‑processamento letterbox (preservando a proporção do campo, igual ao treino) e outro com squash, e um de 2023 (YOLOv5s)10 — e cinco classificadores de 9 classes celulares: VGG16 e VGG1911, ResNet5012, DenseNet12113 e YOLOv8‑cls10.

2.2 Conjuntos de avaliação e verdade de referência

A curadoria humana constitui a verdade de referência. A classificação foi avaliada em 180 imagens (9 classes — basófilo, eosinófilo, linfócito, monócito, neutrófilo, granulócito imaturo, plaqueta, eritroblasto e fundo — 20 por classe, amostragem com semente fixa 42, pré‑processamento raw255). A detecção foi avaliada em 6 campos de mielograma totalizando 50 caixas anotadas.

2.3 Métricas

Uma detecção é considerada verdadeiro‑positivo quando a sobreposição com a caixa de referência atinge IoU ≥ 0,516,17. Reporta‑se precisão, revocação e acerto de classe sobre os verdadeiro‑positivos; para os classificadores, acurácia global e matriz de confusão.

3. Análise estatística

Cada proporção é acompanhada de intervalo de confiança de Wilson (score) 95%4, preferido à aproximação normal e à Clopper‑Pearson5 por bom comportamento em amostras pequenas e proporções próximas de 0 ou 1. Como verificação independente, os mesmos intervalos foram estimados por bootstrap percentil 95% (10.000 reamostragens, semente 42)6. A comparação entre as variantes letterbox e squash, avaliadas sobre as mesmas 50 caixas de referência, usou o teste pareado de McNemar7. Reprodutibilidade: sementes fixas, pré‑processamento congelado e serviço de inferência determinístico (verificado por teste‑ouro de regressão).

4. Resultados

4.1 Classificação (9 classes)

As acurácias variaram de 36,1% (VGG16) a 98,3% (YOLOv8‑cls). A Figura 1 mostra os pontos e os IC de Wilson 95%; as matrizes de confusão dos dois melhores modelos aparecem na Figura 2.

Acurácia por classificador com IC de Wilson 95%
Figura 1. Acurácia por classificador (9 classes, 180 imagens) com intervalos de confiança de Wilson 95%.
ClassificadorAcuráciaAcertos IC Wilson 95%IC bootstrap 95%
VGG1636,1%65/18029,5–43,428,9–43,3
VGG1963,9%115/18056,6–70,556,7–70,6
DenseNet12188,3%159/18082,8–92,283,3–92,8
ResNet5094,4%170/18090,1–97,091,1–97,8
YOLOv8‑cls98,3%177/18095,2–99,496,1–100

Tabela 1. Acurácia por classificador com IC de Wilson e bootstrap 95%.

Matriz de confusão YOLOv8-cls Matriz de confusão ResNet50
Figura 2. Matrizes de confusão dos dois melhores classificadores (YOLOv8‑cls, à esquerda; ResNet50, à direita). Linhas = classe verdadeira (curadoria), colunas = predição.

4.2 Detecção (mielograma)

A variante letterbox apresentou o melhor desempenho global (revocação 0,86; acerto de classe 88,4%), com precisão de 1,00 e nenhum falso‑positivo em 43 detecções. A Figura 3 resume as métricas com IC 95%.

Métricas dos detectores de mielograma com IC 95%
Figura 3. Detectores de mielograma — precisão, revocação e acerto de classe com IC 95% (50 caixas de referência, IoU ≥ 0,5).
DetectorArquit.Precisão (IC95) Revocação (IC95)Acerto classe (IC95)TP/FP/FN
Mielograma 2024 · letterboxYOLOv8n 1,00 (91,8–100)0,86 (73,8–93,0)88,4% (75,5–94,9)43/0/7
Mielograma 2024 · squashYOLOv8n 1,00 (91,6–100)0,84 (71,5–91,7)85,7% (72,2–93,3)42/0/8
Medula 2023YOLOv5s 0,95 (84,5–98,7)0,82 (69,2–90,2)80,5% (66,0–89,8)41/2/9

Tabela 2. Detectores de mielograma — métricas com IC 95% (50 caixas GT, IoU ≥ 0,5).

4.3 Letterbox vs. squash (teste pareado)

Sobre as mesmas 50 caixas, o letterbox recuperou 43 e o squash 42 (Δrevocação = +2,0 pp; Δacerto de classe = +2,7 pp). O teste de McNemar não rejeitou a hipótese nula (p ≈ 1), ou seja, a diferença observada é compatível com ruído amostral neste tamanho de amostra.

Interpretação honesta. O ganho do letterbox é teoricamente motivado — a geometria de inferência passa a coincidir com a do treino, evitando distorção de aspecto — e, nos dados, nunca foi pior; porém, com n = 50 caixas, não é estatisticamente significativo. Adotou‑se o letterbox por consistência metodológica e ausência de prejuízo, não por superioridade comprovada.

4.4 Exemplos de detecção

Detecção em campo de mielograma
Figura 4. Detecção real em campo de mielograma (modelo letterbox). Cada caixa é revisada pelo profissional.
Detecção em campo de sangue periférico
Figura 5. Localização de leucócitos em sangue periférico. Apoio à decisão (RUO).

5. Discussão

No conjunto avaliado, a classificação atinge desempenho alto e estável para os modelos mais recentes (ResNet50 e YOLOv8‑cls), enquanto arquiteturas VGG servem como linha de base inferior — padrão consistente com a literatura de backbones12,13. Na detecção, a precisão elevada (ausência de falsos‑positivos nos modelos de 2024) é desejável em triagem, pois limita alarmes espúrios; a revocação de ~0,85 indica que uma fração das células ainda escapa e reforça a necessidade de revisão humana. A tipagem de leucócitos do sangue periférico é coberta pelo classificador de 9 classes; a verdade de referência de detecção em campo concentra‑se, por ora, no mielograma.

6. Limitações e reprodutibilidade

O principal limite é o tamanho do conjunto anotado de detecção (50 caixas em 6 campos), que amplia os intervalos de confiança e reduz o poder do teste pareado; comparações entre variantes devem ser lidas como exploratórias. As imagens provêm de aquisição limitada e não substituem uma avaliação clínica prospectiva. A plataforma é RUO: as saídas são apoio à decisão e não constituem laudo. Para reprodutibilidade, fixaram‑se sementes (42), pré‑processamento e um serviço de inferência determinístico, verificado por teste‑ouro de regressão a cada implantação.

7. Conclusão

O HematoCase entrega detecção e classificação assistidas com incerteza quantificada (IC de Wilson e bootstrap) e comparações honestas (McNemar). Os melhores modelos alcançam desempenho alto em classificação e precisão perfeita em detecção no conjunto avaliado, sempre sob curadoria humana obrigatória. A ampliação do conjunto anotado é o passo natural para estreitar os intervalos e sustentar afirmações comparativas com significância estatística.

Referências

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