Resumo. O HematoCase é uma bancada digital que oferece apoio à decisão em hematologia: modelos de IA localizam e classificam células em campos de mielograma e sangue periférico, e o profissional habilitado revisa, valida e conclui. Esta nota descreve a metodologia e os resultados de validação frente à curadoria humana. Os detectores de mielograma foram avaliados em 50 caixas anotadas (6 campos, IoU ≥ 0,5) e os classificadores em 180 imagens de 9 classes (20 por classe). O melhor classificador (YOLOv8‑cls) obteve acurácia de 98,3% (IC Wilson 95%: 95,2–99,4); o melhor detector (variante letterbox) alcançou revocação de 0,86 (73,8–93,0), precisão 1,00 e acerto de classe de 88,4%. O tamanho reduzido do conjunto anotado (n = 50) produz intervalos amplos; a diferença entre letterbox e squash não foi estatisticamente significativa (McNemar, p ≈ 1), embora teoricamente motivada. Todos os resultados são apoio à decisão (RUO), nunca laudo.
1. Introdução
A avaliação morfológica do esfregaço de sangue periférico e do aspirado de medula óssea (mielograma) é etapa central do diagnóstico hematológico, apoiada na contagem diferencial e na identificação de linhagens celulares2. Limiares morfológicos têm peso diagnóstico direto — por exemplo, o percentual de blastos que define leucemia aguda na classificação da OMS1 — e a própria contagem diferencial carrega imprecisão amostral bem descrita, que justifica reportar intervalos de confiança em vez de pontos isolados3.
Métodos de aprendizado profundo tornaram-se referência em visão computacional 8 e, em hematologia, redes convolucionais já demonstraram reconhecimento de blastos e tipagem de leucócitos em nível comparável ao humano14,15. O HematoCase aplica detecção de objetos9 para localizar células e classificação para tipá-las, mantendo o profissional como autoridade final. Esta nota reporta a validação desses modelos com quantificação explícita de incerteza.
2. Materiais e métodos
2.1 Modelos
Foram avaliados três detectores de mielograma — dois de 2024 (arquitetura YOLOv8n), um deles com pré‑processamento letterbox (preservando a proporção do campo, igual ao treino) e outro com squash, e um de 2023 (YOLOv5s)10 — e cinco classificadores de 9 classes celulares: VGG16 e VGG1911, ResNet5012, DenseNet12113 e YOLOv8‑cls10.
2.2 Conjuntos de avaliação e verdade de referência
A curadoria humana constitui a verdade de referência. A classificação foi avaliada em 180 imagens (9 classes — basófilo, eosinófilo, linfócito, monócito, neutrófilo, granulócito imaturo, plaqueta, eritroblasto e fundo — 20 por classe, amostragem com semente fixa 42, pré‑processamento raw255). A detecção foi avaliada em 6 campos de mielograma totalizando 50 caixas anotadas.
2.3 Métricas
Uma detecção é considerada verdadeiro‑positivo quando a sobreposição com a caixa de referência atinge IoU ≥ 0,516,17. Reporta‑se precisão, revocação e acerto de classe sobre os verdadeiro‑positivos; para os classificadores, acurácia global e matriz de confusão.
3. Análise estatística
Cada proporção é acompanhada de intervalo de confiança de Wilson (score) 95%4, preferido à aproximação normal e à Clopper‑Pearson5 por bom comportamento em amostras pequenas e proporções próximas de 0 ou 1. Como verificação independente, os mesmos intervalos foram estimados por bootstrap percentil 95% (10.000 reamostragens, semente 42)6. A comparação entre as variantes letterbox e squash, avaliadas sobre as mesmas 50 caixas de referência, usou o teste pareado de McNemar7. Reprodutibilidade: sementes fixas, pré‑processamento congelado e serviço de inferência determinístico (verificado por teste‑ouro de regressão).
4. Resultados
4.1 Classificação (9 classes)
As acurácias variaram de 36,1% (VGG16) a 98,3% (YOLOv8‑cls). A Figura 1 mostra os pontos e os IC de Wilson 95%; as matrizes de confusão dos dois melhores modelos aparecem na Figura 2.
| Classificador | Acurácia | Acertos | IC Wilson 95% | IC bootstrap 95% |
|---|---|---|---|---|
| VGG16 | 36,1% | 65/180 | 29,5–43,4 | 28,9–43,3 |
| VGG19 | 63,9% | 115/180 | 56,6–70,5 | 56,7–70,6 |
| DenseNet121 | 88,3% | 159/180 | 82,8–92,2 | 83,3–92,8 |
| ResNet50 | 94,4% | 170/180 | 90,1–97,0 | 91,1–97,8 |
| YOLOv8‑cls | 98,3% | 177/180 | 95,2–99,4 | 96,1–100 |
Tabela 1. Acurácia por classificador com IC de Wilson e bootstrap 95%.
4.2 Detecção (mielograma)
A variante letterbox apresentou o melhor desempenho global (revocação 0,86; acerto de classe 88,4%), com precisão de 1,00 e nenhum falso‑positivo em 43 detecções. A Figura 3 resume as métricas com IC 95%.
| Detector | Arquit. | Precisão (IC95) | Revocação (IC95) | Acerto classe (IC95) | TP/FP/FN |
|---|---|---|---|---|---|
| Mielograma 2024 · letterbox | YOLOv8n | 1,00 (91,8–100) | 0,86 (73,8–93,0) | 88,4% (75,5–94,9) | 43/0/7 |
| Mielograma 2024 · squash | YOLOv8n | 1,00 (91,6–100) | 0,84 (71,5–91,7) | 85,7% (72,2–93,3) | 42/0/8 |
| Medula 2023 | YOLOv5s | 0,95 (84,5–98,7) | 0,82 (69,2–90,2) | 80,5% (66,0–89,8) | 41/2/9 |
Tabela 2. Detectores de mielograma — métricas com IC 95% (50 caixas GT, IoU ≥ 0,5).
4.3 Letterbox vs. squash (teste pareado)
Sobre as mesmas 50 caixas, o letterbox recuperou 43 e o squash 42 (Δrevocação = +2,0 pp; Δacerto de classe = +2,7 pp). O teste de McNemar não rejeitou a hipótese nula (p ≈ 1), ou seja, a diferença observada é compatível com ruído amostral neste tamanho de amostra.
4.4 Exemplos de detecção
5. Discussão
No conjunto avaliado, a classificação atinge desempenho alto e estável para os modelos mais recentes (ResNet50 e YOLOv8‑cls), enquanto arquiteturas VGG servem como linha de base inferior — padrão consistente com a literatura de backbones12,13. Na detecção, a precisão elevada (ausência de falsos‑positivos nos modelos de 2024) é desejável em triagem, pois limita alarmes espúrios; a revocação de ~0,85 indica que uma fração das células ainda escapa e reforça a necessidade de revisão humana. A tipagem de leucócitos do sangue periférico é coberta pelo classificador de 9 classes; a verdade de referência de detecção em campo concentra‑se, por ora, no mielograma.
6. Limitações e reprodutibilidade
O principal limite é o tamanho do conjunto anotado de detecção (50 caixas em 6 campos), que amplia os intervalos de confiança e reduz o poder do teste pareado; comparações entre variantes devem ser lidas como exploratórias. As imagens provêm de aquisição limitada e não substituem uma avaliação clínica prospectiva. A plataforma é RUO: as saídas são apoio à decisão e não constituem laudo. Para reprodutibilidade, fixaram‑se sementes (42), pré‑processamento e um serviço de inferência determinístico, verificado por teste‑ouro de regressão a cada implantação.
7. Conclusão
O HematoCase entrega detecção e classificação assistidas com incerteza quantificada (IC de Wilson e bootstrap) e comparações honestas (McNemar). Os melhores modelos alcançam desempenho alto em classificação e precisão perfeita em detecção no conjunto avaliado, sempre sob curadoria humana obrigatória. A ampliação do conjunto anotado é o passo natural para estreitar os intervalos e sustentar afirmações comparativas com significância estatística.
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